EDUCAÇÃO EM MODO OFFLINE
POTENCIALIDADES E LIMITES DA ESCOLA DO CAMPO FRENTE À CULTURA ALGORÍTMICA
Resumo
Este artigo analisa criticamente as implicações da cultura algorítmica sobre a realidade das escolas do campo, especialmente em territórios marcados pela precariedade de conectividade e exclusão digital. A partir da metáfora “modo offline”, busca-se compreender como a ausência ou a fragilidade de acesso às tecnologias digitais impacta os processos de ensino-aprendizagem, a formação docente e a gestão pedagógica em comunidades rurais. O estudo ancora-se em uma abordagem qualitativa de caráter exploratório, com base em análise documental de políticas públicas, observações de campo e escuta sensível de docentes atuantes em escolas insulares. A discussão evidencia que a cultura algorítmica — sustentada por plataformas digitais, sistemas de recomendação e vigilância de dados — aprofunda desigualdades socioterritoriais ao impor modelos pedagógicos descolados da realidade rural. Contudo, o artigo também aponta práticas de reinvenção pedagógica e resistência epistemológica protagonizadas por educadores e educadoras do campo, que constroem saberes em diálogo com os territórios, mesmo em contextos de desconexão estrutural. Conclui-se que o “modo offline” não é apenas uma limitação técnica, mas um campo fértil de potência crítica e criação educativa que exige reconhecimento e valorização nas políticas de inclusão digital e formação docente.
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